quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

31 de dezembro de 2009

Ex-Blog do Cesar Maia

2009: LULA E A PERCEPÇÃO INTERNACIONAL!
                
1. Merece uma avaliação cuidadosa a percepção internacional sobre Lula. Os elogios; os destaques na imprensa, como Le Monde e Financial Times; o artigo de Zapatero, chefe de governo da Espanha; o "cara" declarado por Obama; tudo converge para um ano de consagração. Mas ao mesmo tempo, todas as demandas do Brasil por espaço nos órgãos internacionais foram amplamente derrotadas. Assim foi na Organização Mundial de Comércio (OMC), assim foi na Corte Internacional de Haia, como também deixada na gaveta a pretensão brasileira de mudança no Conselho de Segurança da ONU com um lugar permanente.
                
2. Colocando a lupa mais próxima aos fatos, o ano de 2009 começa com uma crise financeiro-econômica que projetava o risco de uma desestabilização política, além da econômica, pelos quatro cantos do mundo. A crise de 29 é exemplo disso e a Europa foi seu palco principal, na Alemanha, dando sustentabilidade ao regime italiano, reforçando o falangismo espanhol, o salazarismo, o bloco soviético... É uma memória viva.
                
3. O primeiro alívio veio com as eleições na Índia, em maio, com a vitória da aliança governista. O segundo veio com a eleição para o parlamento europeu com a vitória do PPE, de centro-direita. Obama apontou na direção da estabilidade política e os que imaginavam que traria mudanças políticas fortes, em pouco tempo entenderam que não era assim. As relações entre EUA, China e Rússia apostaram na estabilidade e deram visibilidade a isso.
                
4. Os riscos estavam concentrados na América Latina e especialmente no Brasil, por sua dimensão e repercussões na geopolítica regional e na economia. O Brasil precisava ser neutralizado e acomodado. E o sinal veio da primeira reunião oficial do G-20 para tratar da crise mundial. Recebido com pompas e circunstâncias por Obama, a apresentação de Lula por este como "esse é o cara" a outros líderes mundiais mostrou-se muito bem sucedida. Lula teve um comportamento convergente na reunião e ainda saiu reforçando o papel do FMI com aporte de capital.
                
5. Mas o artificial da projeção de Lula era tão evidente, que ele, em seguida, deveria dar sinais de independência para a esquerda. E assim foi em sua viagem à Venezuela, nas afirmações sobre as bases colombianas e os EUA, na intervenção -desastrada- do Brasil no caso de Honduras, e na visita do presidente do Irã. Tudo foi bem entendido pelos líderes dos EUA, França e Reino Unido, que se mantiveram silenciosos e compreensivos.
 
                                                    * * *

2009: A INFLEXÃO POLÍTICA DA AMÉRICA LATINA!

                
1. Após as diversas eleições na América Latina, quando se esperava uma intensificação das tendências à esquerda -e chavistas- em função da crise internacional, a resultante foi muito diferente do esperado pelos bolivarianos. Venezuela, Equador e Bolívia, é verdade, ficaram onde estavam. A vitória da FMLN, em El Salvador, frustrou Chávez, pois Fulnes, o presidente eleito como independente apoiado pela FMLN, assumiu a diplomacia presidencial e não se acercou a Chávez, que por isso sequer foi a sua posse.
                
2. O caso de Honduras, depois de muita espuma, foi uma derrota contundente para Chávez, que com o lastro internacional, esperava reintegrar seu parceiro Zelaya. Brasil se incumbiu da tarefa suja. Mas o resultado foi a exclusão de Zelaya numa prisão domiciliar na embaixada do Brasil, eleições com participação ampliada e vitória do partido nacional, o mais à direita, em todos os níveis.
                
3. As eleições parlamentares intermediárias na Argentina derrotaram os Kirchner tanto na câmara como no senado, onde perdeu a maioria que detinha. No Uruguai houve continuidade de um governo que, entrando pela esquerda, se mostrou a grande surpresa do continente, com um posicionamento de centro, moderado em todas as instâncias. A expectativa de Lugo "chavizar" o Paraguai se esvaiu, seja pela tática correta adotada pela oposição de se concentrar em nível parlamentar, seja pela desmoralização pessoal do Bispo com seus filhos declarados e reconhecidos.
               
4. Finalmente, a grande surpresa veio do Chile com a vitória de Piñera -do partido renovação nacional, de centro-direita- com ampla vantagem no primeiro turno, apontando para uma vitória no próximo mês de janeiro.
               
5. Portanto, o vetor político resultante de 2009 em relação a 2008 mostra uma inflexão política na América Latina, descolando-se do risco chavista, reforçando a tendência democrática e que tende a ser reforçado em 2010.
 
                                                    * * *  

2009: A ECONOMIA BRASILEIRA!

               
1. O fato da crise econômica, no Brasil e em tantos países mais, não ter tido a profundidade projetada no final de 2008, e Lula ter usado como pôde a propaganda para criar uma sensação ainda melhor, não tira dela as consequências delicadas para o Brasil. A crise na indústria brasileira pode ser medida pela radical inversão de sua balança comercial, que aponta em 2010 para um déficit superior aos 10 bilhões de dólares. As exportações brasileiras mergulharam e as induútriais caíram 20%.
              
2. O Brasil inverteu a tendência de tantos anos, de se tornar um país exportador de produtos industriais manufaturados. A balança comercial com a China é exemplo disso, onde das exportações do Brasil, 80% são de produtos primários. O PIB brasileiro em 2009 terá uma queda de quase 1%, o que tem importante impacto social pela queda do PIB per capita de cerca de 3%.
              
3. A recuperação do emprego no Brasil se deu nos setores tradicionais e informais, apontando para uma perda de competitividade internacional pós-crise. O agro-negócio sentiu um forte golpe e o exemplo maior é o do setor de carnes/frigoríficos.
              
4. Finalmente, as Contas Públicas, usadas como elemento contra-cíclico, desmontaram. O Brasil é o único país do mundo em que ainda se usa, depois da hiperinflação, o déficit primário como medida fiscal. Em todos os outros o déficit público é o nominal, incluindo os juros. O déficit nominal brasileiro se tornou uma preocupação geral. Saindo de 1,5% do PIB antes da crise, termina 2009 com 4,5% do PIB. O anúncio de alguma melhora em novembro, mas não muda nada em relação ao acumulado.
              
5. Além da propaganda governamental e da natural torcida de todos, a começar pela imprensa cujas empresas sofreram muito também, o Brasil pós-crise é um país que entra num quadro internacional muito mais competitivo, com sua competitividade abalada. Os ministros chutam números aos ares para 2010. Afinal, só serão ou não comprovados após as eleições, e são essas que interessam ao governo.
 
                                                    * * *

2009: AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2010!
               
1. Aqui sim Lula termina 2009 com um quadro muito mais favorável que o que iniciou 2009. Uma escolha açodada de candidata sem currículo e sem charme eleitoral terminou chegando ao ponto que Lula queria: acima dos 20%. E com cruzamentos em pesquisa que indicam que crescerá ainda mais nos meses iniciais de 2010.
                
2. A oposição se mostrou incapaz de entrar em campo com seu time escalado. A tática de ganhar tempo não só abriu caminho a Dilma, como afetou a situação em vários Estados importantes e ainda produziu feridas, que são certamente sanáveis, mas que sempre deixam uma casquinha ou outra.
                
3. Cabe a candidatura presidencial da oposição usar bem o primeiro trimestre de 2010 para curar as feridas, reerguer nomes em vários Estados e voltar ao quadro de favoritismo que apontava no início de 2009. Ainda há tempo. Mas nem tanto assim.

                                                    * * *

BOLSA: CONTAS CURIOSAS!
                    
A Bolsa despencou em fins de 2008. Recuperou-se em 2009 e voltou ao mesmo nível de agosto de 2008: 70 mil pontos. A isso se chama uma espetacular variação positiva. O investidor que estava ali em agosto de 2008 não ganhou nada. Os espertos que saíram antes e voltaram depois, pode ser.

                                                    * * *

OITO AGENTES DA CIA MORREM EM ATENTADO NO AFEGANISTÃO!

                
(El País, 31/12)  Num dos ataques mais cruéis sofridos pelos EUA no Afeganistão e na história da CIA, um terrorista explodiu carga explosiva no interior de um recinto militar usado como posto da CIA, matando oito pessoas. Segundo o Washington Post e CNN eram agentes da CIA.
 
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