| | ELEIÇÃO NÃO É DUELO DE ESPADACHINS! 1. No mundo todo, a imprensa cobre as campanhas eleitorais como uma luta de espadachins ou uma corrida de cavalos. Apresenta as declarações, performances, opiniões dos candidatos como um duelo. Aqui no Brasil não é diferente. 2. O problema não está nesse tipo universal de cobertura. O problema está nos candidatos competitivos acreditarem que são espadachins e que estão em um duelo. Quem entra nesse jogo, em geral, perde a eleição. Atinge seu adversário com um golpe de espada e está certo que esse é o caminho do sucesso. Não é. 3. Quem desfere os golpes mortais nesse ou naquele espadachim, é o eleitor. É um duelo curioso, que é o distinto público que escolhe o vencedor. E escolhe conversando com as pessoas que tem contato, sempre ou eventualmente. Um golpe forte de um espadachim fazendo sangrar o adversário pode ser percebido pelo público, vitimando quem foi golpeado, e anotando pontos a favor desse. 4. Portanto, não é tão simples como um duelo, a lógica e dinâmica eleitorais. Os contendores devem estar sempre pensando se seus golpes e seu comportamento estão chegando às centenas de milhares de eleitores, e como estes estão reagindo em seu círculo social. Ou seja, se ele duela em nome dos eleitores e com o entusiasmo desses. A lógica do espadachim pode não ser a lógica do eleitor. 5. Muito mais importante que o espadachim ficar olhando para as câmeras de fotos e TV, ficar fitando apenas seu adversário ou mirando os que estão na área VIP assistindo o duelo, é entender que ele é parte de um todo, com o qual deve interagir, e é mesclado a esse todo que conseguirá a vitória. E não sua habilidade no manejo da espada. * * * 200 ANOS DE INDEPENDÊNCIA DA AMÁERICA HISPÂNICA? 1. O ciclo de independências da América Hispânica tem dois momentos. O primeiro, após a ocupação por Napoleão da Espanha e a prisão em solo francês, de Carlos IV e Fernando VII, seu filho, a quem transferiu a coroa, que na prisão renunciou em favor de seu pai, e esse em favor de José Bonaparte, irmão de Napoleão. 2. Nesse período, a coroa espanhola foi substituída por Juntas Governativas com a presença das autoridades espanholas anteriores. Quase todas as tentativas de independência, aproveitando o vácuo de poder, foram frustradas. Moreno, líder portenho, afirmava que a América Hispânica não era subordinada a Espanha, mas a Coroa que com a deposição dos reis, não havia porque se submeter a José Bonaparte. Mas seria com o retorno. 3. Apenas em uma província, a independência ocorreu desde aí, de forma definitiva: o Paraguai. Na hoje Argentina, na época províncias do vice-reino do Prata, o movimento inicial se circunscreveu a Buenos Aires estimulado pelas tentativas de ocupação pela Inglaterra em 1806 e 1807, e se alastrou levando a independência em 1816. O que se comemora em 2010, é o início do processo de independência em 1810. O Chile, que também comemora este ano os 200 anos de independência, na verdade, depois das tentativas de derrubar a Junta Governativa, esta recuperou o poder inteiramente para a Coroa e a independência só ocorreu em 1817 sob a liderança de San Martin, vindo da Argentina. 4. Com a expulsão de Napoleão e a reassunção da coroa por Fernando VII, com as exceções citadas, a Coroa de Espanha recuperou o poder, ao meio de um quadro de reação crescente dos que lutavam pela independência, com as simpatias da Inglaterra. Esse processo começa a ser revertido com a reação "liberal" ao absolutismo das Coroas da Espanha e Portugal que culminaram com as chamadas revoluções constitucionalistas de Madrid e do Porto. 5. Esse período é o ponto de inflexão definitiva e de independência de fato e de direito de todas as províncias da América Hispânica, com o estilhaçamento dos vice-reinados e a criação de quase todos os países como conhecemos hoje. Cuba foi o único a não se tornar independente até 1902, quando da guerra EUA-Espanha. Assim mesmo permaneceu até 1933 com uma clausula constitucional que permitia a intervenção dos EUA se sentisse que seus interesses estavam ameaçados (Emenda Platt). 6. Só no período 1816-1822, é que ocorreram de fato e de direito as independências da América Hispânica. Mesmo assim o desenho de alguns países só foi definido muitos anos depois. É o caso dos EUA que comprou a Lousiania em 1802, absorveu a Florida em 1817, o Texas em 1834 e a Califórnia em 1848. 7. As razões pelas quais a desintegração da América Hispânica e os países resultantes disso, não construíram sistemas estáveis e a América do Norte sim, é outro capitulo que se explica pelas razões que levaram a independência em um e outro caso. Fica para outra vez. * * * O AVIÃOZINHO! 1. Se há fatos que nunca geraram problemas para o Rio são os eventos ao ar livre, shows que reúnem multidões. A própria polícia diz que os registros são mínimos ou inexistentes nesses grandes shows. As pessoas se divertem e tem sua privacidade, espontaneidade e segurança garantidas. 2. Há um elemento central para se entender a psicologia das massas: é o ocultamento ou a impessoalidade. Alguém dentro de um grande evento, seja um grande show ou um grande comício, sente ao mesmo tempo sua individualidade e ser parte do todo. De fora para dentro, essa privacidade é garantida pela própria aglomeração. 3. Esses shows vêm ocorrendo no Rio e sempre com máximo sucesso. Mas agora, a prefeitura-Rio quer comprar um aviãozinho, um vídeo-aviãozinho, que gravaria, de cima, as imagens internas do público nos shows. Com isso, dizem, querem garantir a segurança do evento. Mas para que, se a característica principal deles é a paz, a tranquilidade e a alegria? 4. O vídeo-aviãozinho quebraria a privacidade e cada um se sentiria filmado, seja um beijo, seja um rebolado, seja coçando o nariz, etc. Cada vez que o vídeo-aviãozinho passar, produzirá uma retração no comportamento, a perda da espontaneidade. 5. Esse vídeo-aviãozinho só pode ter passado na cabeça de quem não conhece o Rio, ou quem sabe, por alguma tara para ver depois imagens íntimas, pessoais e espontâneas. Que tal programar os vôos desse vídeo-aviãozinho no local de moradia onde moram essas "autoridades municipais". * * * ANTHONY GIDDENS, TEÓRICO DA TERCEIRA VIA, EXPLICA O TRABALHISMO APÓS SUA QUEDA! (Clarín, 20) 1. O trabalhismo conseguiu permanecer no poder por mais tempo do que qualquer outro partido de centro-esquerda nos últimos tempos, incluindo os países escandinavos. Foi um feito de grande importância, dado que o partido nunca antes tinha estado no poder durante dois mandatos completos em seus mais de cem anos de existência. As mudanças ideológicas associadas à criação do termo "Novo Trabalhismo" constituíram grande parte da razão de seu sucesso eleitoral. 2. O novo trabalhismo não era uma etiqueta vazia pensada para esconder um vácuo político. Pelo contrário, foi desde o início um forte diagnóstico do porque a inovação era algo necessário na política de centro-esquerda e também uma agenda política clara. Os valores da esquerda - solidariedade, redução das desigualdades, proteção dos menos favorecidos, somados a firme convicção do papel fundamental de um governo ativo para alcançá-los - permaneceram intactos, mas as políticas destinadas para alcançar esses fins tiveram que sofrer uma mudança radical devido às profundas alterações que ocorriam na sociedade. 3. Estas mudanças incluíam a intensificação da globalização, o desenvolvimento de uma economia pós-industrial ou de serviços e, na era da informação, o surgimento de um a cidadania mais volúvel e combativa, menos respeitadora das figuras de autoridade que no passado (um processo que logo o advento da internet expandiu ainda mais). A maioria das políticas trabalhistas derivou dessa análise. A era da gestão da demanda keynesiana, vinculada à direção estatal da economia, havia terminado. 4. Tinha que ser estabelecida uma relação diferente entre o governo e empresas, e reconhecer o papel fundamental das empresas na criação de riqueza, assim como os limites do poder estatal. Nenhum país, por maior e poderoso que fosse, poderia controlar esse mercado. O advento da economia de serviços ou baseada no conhecimento se juntou à redução da classe trabalhadora, reduto tradicional do Partido Trabalhista. 5. Para ganhar as eleições, portanto, um partido de centro-esquerda teria que chegar a um espectro muito mais amplo de eleitores, incluindo aqueles que nunca haviam apoiado o trabalhismo, que já não podia continuar sendo somente um partido de classes. Com Tony Blair, que não era exatamente um trabalhista da velha escola, o partido pareceu ter encontrado o líder perfeito para alcançar esse objetivo. |
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