sexta-feira, 22 de outubro de 2010

22 de outubro de 2010

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Ex-Blog do Cesar Maia

Cesar Maia

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CICLOS POLÍTICOS!
                        
Coluna de Cesar Maia na Folha de SP (16).
        
1. Há certa tendência do eleitorado em dar aos governos um prazo maior que o de um mandato para mostrar a que vieram. A reeleição é percebida como um mandato de oito anos, com "recall" no quarto.  Só um governo desastrado não consegue a reeleição. Mesmo aqueles com avaliação regular tendem a conseguir o segundo mandato, projetando expectativas a partir do tempo que precisam. E do uso da máquina. Nos regimes parlamentaristas, estes ciclos costumam ir  além dos oito anos, mas raramente acima de 12 anos.
        
2. Helmut Kohl, na Alemanha, foi uma exceção: governou 16 anos. As razões para o esgotamento dos ciclos decenais são conhecidas. As  expectativas excedem, e vem um julgamento muito mais enérgico que no primeiro mandato. O eleitorado muda, com a inclusão dos que eram jovens sem direito a voto antes. É o conhecido "desgaste de material" que o exercício do poder impõe. "Desgaste de material" é quando o governante passa a ter a intimidade do eleitor e perde a capacidade de criar expectativas e de surpreender.
        
3. A sensação de que as mudanças, ou mais mudanças, não virão estimula o eleitorado a buscar a alternância. No entanto, nada disso é automático, e menos ainda compulsório. Depende  da oposição. Quando uma força política, ou uma coligação, vê seu ciclo terminar e toma isso como fracasso seu, e não como a alternância de  ciclos, produto da tendência natural do eleitor, se precipita e passa a se autoflagelar. E, assim, transforma em desastre uma derrota natural e  previsível.
        
4. O novo ciclo, que poderia ser mais curto, termina sendo mais longo, pela  fragilização da oposição. A entrada de um novo ciclo político exige das forças políticas que estão fora da nova onda paciência e talento.  Paciência para entender esse processo e não ter crises de ansiedade. Talento para encurtar a duração da nova onda.
        
5. Em 2002, a percepção da oposição era que o governo que assumia produziria um desastre. Ficou esperando. O desastre não veio, e uma expansão mundial lhe deu até conforto. No "mensalão" de 2005, a palavra  de ordem que prevaleceu foi "deixar sangrar". A sangria passou rapidamente, com umas demissões, o crescimento econômico e a intensificação dos programas assistenciais. Por aqui, um novo ciclo atrai políticos de um lado para outro.
        
6. Nos países em que o voto é distrital ou em lista, com poucos partidos, isso não ocorre. Num país federado e continental como o Brasil, esses ciclos  se dão também em nível regional. E o que se vê, país afora, é uma ingênua e imprudente autoflagelação dos perdedores. Paciência e talento aos perdedores.

                                                * * *

TAXA DE DESEMPREGO NÃO CAIU COMO DISSE O IBGE!
                
1. O IBGE informou  que "o desemprego brasileiro atingiu recorde de baixa em setembro, caindo para 6,2%, ante 6,7% em agosto". Na verdade não é bem assim, pois não é sustentável.
                
2. A taxa de desemprego no Brasil se mede pelos que estão procurando emprego nos últimos dias. Em setembro, se estava no coração do processo eleitoral. Com isso, centenas de milhares de pessoas eram contratadas para colocar e vigiar placas, para agitar bandeiras, para distribuir panfletos, para acompanhar candidatos fazendo movimento, etc.
                
3. Dessa forma, durante o período eleitoral, a taxa de desemprego -pessoas que procuram emprego- ou se estabiliza ou tende a diminuir durante este período até novembro, quando ainda se recebe algo como reflexo do segundo turno.

                                                * * *

O FIM DO 'ESTADO DO BEM ESTAR' NA GRÃ-BRETANHA?
                                        
Trechos do artigo de Walter Oppenheimer, no El País (21).
                
1. O Partido Conservador britânico anunciou o maior corte de gasto público que se lembra o Reino Unido desde a II Guerra Mundial. É o maior ajuste do Estado do Bem Estar, jamais pensado por um governo britânico. Ainda que a motivação oficial seja econômica, pode acabar marcando politicamente a legislatura que acaba de começar.
                
2. O que não se sabe ainda é em que sentido vai apontar. O que se sabe é que quase meio milhão de trabalhadores do setor público vão perder o emprego. Que o Estado de Bem Estar  britânico vai se ver reduzido em mais de 19 bilhões de libras ao ano, (21,6 bilhões de euros). Que as taxas universitárias vão se multiplicar. Que os exércitos britânicos vão perder efetivos humanos e materiais. Que conseguir uma habitação social vai ser muito mais caro. Que homens e mulheres vão ter que trabalhar até os 66 anos, antes de poder cobrar uma aposentadoria pública.
                
3. O ministro da fazenda, George Osborne, adotou tons dramáticos ao apresentar o ajuste na Câmara de Deputados: "Hoje é o dia que Grã-Bretanha dá um passo atrás, estando na beira do abismo", disse. "Atacar o déficit orçamentário é inevitável. Renunciar agora a isso e  abandonar nossos planos seria um caminho à ruina económica", agregou.  "Temos a pior herança económica da historia", dramatizou. "Temos que tomar decisões duras para assegurarmos que a catástrofe económica dos anteriores Governos não se repita", insistiu.
                
4. Argumentos, na realidade, mais políticos que económicos. Ninguém no Reino Unido discute que há que reduzir o déficit público. Nem sequer os trabalhistas. O debate, vem há meses, mas, todavia agora, e até onde tem que chegar a tesoura, em um momento, em que a recuperação económica é muito frágil.  "Não era necessário concentrar-se tanto o ajuste no gasto. Isso era una opção. Eu poderia estar  em geral de acordo com isso. Mas é tanto uma decisão política como uma necessidade económica", escreveu no mesmo dia Martin Wolf, legendário comentarista do Financial Times e nada suspeitos de ser de esquerda.
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Pesquisa e Edição: JCM
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